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quarta-feira, 24 de maio de 2023

Jesus e a mulher samaritana - A origem dos samaritanos

João 4.3-30: 

Na Bíblia, há uma narrativa que conta como o rei Salomão teve um sonho em que Deus lhe falou que iria rasgar seu reino em duas partes (1 Reis 11:29-39). Esse episódio ocorreu no final do reinado de Salomão, quando ele já havia se desviado da Lei de Deus e se envolvido com mulheres estrangeiras e com a adoração a outros deuses.

De acordo com a história, Deus apareceu a Jeroboão, um dos servos de Salomão, e lhe disse que ele seria o novo rei das dez tribos do norte de Israel. Deus lhe disse que isso aconteceria porque Salomão havia se afastado dos seus mandamentos e se voltado para outros deuses. No entanto, Deus prometeu a Jeroboão que, se ele obedecesse aos seus mandamentos, seu reinado seria tão próspero quanto o de Salomão.

Posteriormente, Jeroboão liderou uma revolta contra Salomão e proclamou-se rei das dez tribos do norte, formando assim o Reino de Israel. As tribos do sul, incluindo Judá e Benjamim, permaneceram sob o domínio da dinastia de Davi e formaram o Reino de Judá.

Assim, o sonho de Salomão foi uma profecia divina que se cumpriu com a divisão do Reino de Israel em dois, após sua morte. Esse evento teve consequências significativas na história de Israel, já que a separação entre as tribos do norte e as tribos do sul gerou tensões e conflitos que persistiram por séculos.

A separação entre judeus e samaritanos teve origem na divisão do Reino de Israel após a morte do rei Salomão, no século X a.C. Segundo a Bíblia, Salomão havia governado um reino unificado que incluía tanto as tribos do norte quanto as tribos do sul de Israel. No entanto, após a morte de Salomão, seu filho Roboão se tornou rei e adotou políticas que desagradaram as tribos do norte. Como resultado, as dez tribos do norte se separaram e formaram o Reino de Israel, enquanto as tribos do sul, que incluíam Judá e Benjamim, formaram o Reino de Judá.

A região da Samaria, onde viviam os samaritanos, ficava no centro do Reino de Israel. Durante os séculos seguintes, os samaritanos desenvolveram sua própria forma de religião e cultura, que diferia daquela dos judeus do Reino de Judá. A tensão entre judeus e samaritanos se intensificou ao longo dos anos, e a divisão entre os dois grupos ficou ainda mais evidente após a destruição do Templo de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C. Enquanto os judeus do Reino de Judá reconstruíram o templo e mantiveram suas práticas religiosas tradicionais, os samaritanos continuaram a adorar a Deus no Monte Gerizim, como mencionado anteriormente.

Assim, a separação entre judeus e samaritanos se deve principalmente à história complexa e às divergências religiosas e culturais que se desenvolveram ao longo dos anos. A referência em 1 Reis 12:20 se relaciona com a divisão do Reino de Israel após a morte de Salomão, que marcou o início desse processo de separação entre as tribos do norte e as tribos do sul.

Fazendo um paralelo entre a história da mulher samaritana em João 4 e a divisão do Reino de Salomão em Judá e Israel.

Segundo a narrativa bíblica, após a morte do rei Salomão, o Reino de Israel se dividiu em dois: o Reino de Israel, ao norte, e o Reino de Judá, ao sul. Israel foi governado por uma série de reis, muitos dos quais foram idólatras e não obedeceram aos mandamentos de Deus. Como resultado, Deus permitiu que Israel fosse invadido por várias nações, incluindo os assírios, os babilônios, os persas, os gregos e os romanos.

A invasão dos assírios em 722 a.C. foi especialmente devastadora para o Reino de Israel, que foi conquistado e seus habitantes foram levados como cativos para a Assíria. Como resultado, muitos judeus de Judá se recusaram a se misturar com os samaritanos que habitavam a região norte, considerando-os impuros e infiéis.

A história da mulher samaritana em João 4 mostra a tensão entre judeus e samaritanos, e como Jesus quebrou as barreiras entre os dois grupos ao se envolver em um diálogo respeitoso com a mulher samaritana. Portanto, a história da mulher samaritana pode ser vista como um exemplo de como Jesus transcendeu as divisões entre os povos, oferecendo a todos a salvação e o amor de Deus.

Os samaritanos eram um grupo étnico e religioso que habitava a região da Samaria, situada entre a Galileia, ao norte, e a Judeia, ao sul, na época de Jesus. Eles seguiam uma forma modificada da Lei de Moisés e acreditavam que o local correto de adoração a Deus era no Monte Gerizim, em vez de Jerusalém, onde o templo judaico estava localizado.

A diferença na crença entre os judeus e os samaritanos em relação ao local de adoração criou uma tensão entre os dois grupos. Os judeus consideravam os samaritanos como hereges e não se relacionavam com eles. Na verdade, a hostilidade entre judeus e samaritanos era tão forte que os judeus evitavam viajar pela Samaria e optavam por fazer uma rota mais longa quando precisavam se deslocar de uma região para outra.

No entanto, Jesus desafiou essas barreiras culturais e religiosas ao falar com a mulher samaritana e reconhecer a validade da sua fé. Ao mesmo tempo, Ele também enfatizou que a verdadeira adoração a Deus não está ligada a um lugar físico, mas é uma questão de espírito e verdade. Com isso, Jesus rompeu as barreiras entre os judeus e samaritanos, mostrando que a salvação de Deus está disponível para todos, independentemente de sua origem ou religião.

Os samaritanos seguiam uma forma modificada da Lei de Moisés que diferia da tradição judaica em alguns pontos. Por exemplo, eles possuíam um texto sagrado próprio, conhecido como o Pentateuco Samaritano, que consistia nas mesmas cinco primeiras escrituras da Bíblia Hebraica ou do Antigo Testamento, mas com algumas diferenças de redação e ênfase em relação à versão judaica. Além disso, os samaritanos praticavam alguns rituais e cerimônias religiosas que eram diferentes dos praticados pelos judeus, como a observância do sábado em outro dia da semana e a realização de sacrifícios no Monte Gerizim, em vez de no Templo de Jerusalém.

Essas diferenças foram o resultado de uma história complicada entre judeus e samaritanos que se estendia por séculos. Após a divisão do Reino de Israel em dois, no século X a.C., a região da Samaria foi governada por uma série de reis que introduziram novas práticas religiosas e culturais na região. Os judeus do Reino de Judá consideraram essas práticas como heréticas e, assim, surgiram as diferenças religiosas entre judeus e samaritanos.

Apesar dessas diferenças, é importante lembrar que, assim como Jesus reconheceu a validade da fé da mulher samaritana, os samaritanos também consideravam a figura de Moisés e a Lei de Deus como fundamentais para sua religião. De fato, os samaritanos eram uma comunidade religiosa que acreditava na unicidade de Deus e que, em muitos aspectos, se assemelhava aos judeus de sua época.

Resumo técnico em ordem cronológica:

1.      Em um sonho, Deus fala com Salomão e diz que irá rasgar seu reino em dois, deixando seu filho com apenas uma tribo, enquanto as outras dez tribos formariam um novo reino.

2.      Em 930 a.C., após a morte do rei Salomão, o reino de Israel foi dividido em dois: o Reino de Israel (também conhecido como Reino do Norte) e o Reino de Judá (ou Reino do Sul).

3.      Em 722 a.C., o Reino de Israel foi conquistado pelos assírios, que exilaram grande parte de sua população, e outras tribos foram trazidas de outras regiões para habitarem a região de Samaria. Com o passar do tempo, essas tribos se misturaram com a população remanescente de Israelitas, bem como com outras tribos não-judaicas que já habitavam a região.

 

Dentre esses povos que formaram a mistura encontrada na região de Samaria, podemos citar:

 

1.      Cutas, que eram originários da Babilônia e haviam sido levados à Samaria pelo rei da Assíria como parte do processo de colonização;

2.      Avitas, que eram originários de Hamate, ao norte de Damasco;

3.      Sefarvitas, que eram originários de Sefarvaim, uma cidade próxima a Hamate;

4.      Hamatitas, que eram originários de Hamate;

5.      Elamitas, que eram originários de Elão, uma região ao leste da Babilônia.

 

4.      Após a conquista assíria, a região de Samaria foi habitada por uma mistura de povos de diferentes origens e culturas, incluindo alguns judeus que permaneceram na região e se casaram com não-judeus.

5.      Os samaritanos adotaram uma forma modificada da Lei de Moisés e acreditavam que o local correto de adoração a Deus era no Monte Gerizim, em vez de em Jerusalém.

6.      586 a.C.: O Reino de Judá é conquistado pelos babilônios e os judeus são exilados.

7.      516 a.C.: Os judeus exilados na Babilônia retornam e reconstruem o Templo de Jerusalém.

8.      445 a.C.: Os judeus reconstróem os muros de Jerusalém.

9.      332 a.C.: Alexandre, o Grande, conquista Jerusalém e incorpora a região à Grécia.

10.  63 a.C.: O Reino de Judá é conquistado pelos romanos e torna-se uma província romana.

11.  30 d.C.: Judeus e samaritanos ainda mantinham uma tensão religiosa e cultural.

Jesus tem um encontro com a mulher samaritana no poço de Jacó em Samaria, ensinando a ela sobre a verdadeira adoração e se revelando como o Messias esperado pelos judeus e samaritanos.

Embora a Bíblia não forneça uma explicação detalhada sobre a conexão entre os cinco maridos da mulher samaritana e os cinco povos que formaram a mistura na região da Samaria, é possível fazer uma conexão simbólica entre esses eventos.

Ao mencionar os cinco maridos da mulher, Jesus pode ter buscado fazer uma analogia com a mistura de povos que ocorreu na região da Samaria. A presença de povos como os cutas, avitas, sefarditas, hamatitas e elamitas na região, e sua mistura com os samaritanos, criou uma sociedade híbrida, com características próprias e distintas da cultura judaica.

No entanto, a fala de Jesus pode ter buscado despertar o inconsciente da mulher samaritana para suas raízes no judaísmo, e a conexão entre sua história e a história do povo de Israel. Ao mencionar seus cinco maridos, Jesus pode ter querido trazer à tona as cinco tribos que se misturaram na região da Samaria, e a sua conexão com a história e a tradição judaicas.

A mensagem que Jesus pode ter buscado transmitir para a mulher samaritana é que, apesar de sua sociedade ter se misturado com outros povos, suas raízes e sua identidade ainda estavam enraizados na história e na tradição judaica. A fala de Jesus poderia ter tido um significado profundo para a mulher samaritana, que poderia ter se sentido conectada novamente com suas raízes, bem como para o povo samaritano como um todo.

Ao se encontrar com Jesus, a mulher samaritana pode ter tido a oportunidade de refletir sobre sua própria identidade e sobre o papel do seu povo na história da redenção. Essa reflexão poderia ter despertado nela um senso de conexão com as tradições judaicas e com o povo escolhido por Deus, permitindo que ela encontrasse um novo sentido em sua vida.

Assim, embora a conexão entre os cinco maridos da mulher samaritana e os cinco povos que formaram a mistura na região da Samaria possa parecer simbólica, ela pode ter um significado profundo e poderoso para aqueles que se conectam com a mensagem de Jesus e com a história do povo de Israel.

Marcos Domingos

sexta-feira, 19 de maio de 2023

A matemática do pecado e da iniquidade

 Parábola da ovelha perdida:

“Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?

E achando-a, a põe sobre os seus ombros, jubiloso;

E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.” Lucas 15:4-6

O pastor tinha 100 ovelhas e perdeu 1 delas. Para calcular o percentual de perda, dividimos o número de ovelhas perdidas pelo número total de ovelhas e multiplicamos por 100.

 Percentual de perda = (1 / 100) * 100 = 1%

  Parábola da dracma perdida:

“Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar?

E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.”   Lucas 15:8-9

 A mulher tinha 10 dracmas e perdeu 1 delas. Novamente, vamos calcular o percentual de perda.

 Percentual de perda = (1 / 10) * 100 = 10%

  Parábola do filho pródigo:

“E disse: Um certo homem tinha dois filhos;

E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda.

E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.

E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades.”   Lucas 15:11-14

O pai tinha 2 filhos e perdeu 1 deles, que se afastou de casa. Vamos calcular o percentual de perda.

Percentual de perda = (1 / 2) * 100 = 50%

Portanto, de acordo com os números mencionados, a primeira parábola apresenta uma perda de 1%, a segunda parábola mostra uma perda de 10%, e a terceira parábola indica uma perda de 50%.

As três parábolas contadas por Jesus no capítulo 15 do Evangelho de Lucas. A parábola da ovelha perdida, a parábola da dracma perdida e a parábola do filho pródigo, podem, de fato, ser relacionadas para ilustrar um princípio de apostasia gradativa. Embora as porcentagens mencionadas possam variar dependendo da interpretação, a progressão numérica das parábolas pode nos ajudar a refletir sobre o afastamento gradual da fé e a necessidade de arrependimento e retorno a Deus.

 Na primeira parábola, Jesus fala de um pastor que tinha 100 ovelhas, mas uma delas se perdeu. Essa ovelha representa uma pequena porcentagem das 100, apenas 1%. A partir dessa história, podemos entender que a apostasia muitas vezes começa com uma pequena distração, um desvio aparentemente insignificante, mas que pode levar à separação do rebanho.

Na segunda parábola, Jesus conta sobre uma mulher que tinha dez dracmas e perdeu uma delas. Agora, a porcentagem aumenta para 10% das moedas. Isso sugere que a apostasia pode progredir e afetar ainda mais a vida das pessoas. Assim como a mulher fez todo o esforço para encontrar a dracma perdida, Deus também busca incansavelmente aqueles que estão se afastando, desejando trazê-los de volta ao Seu amor.

Por fim, na parábola do filho pródigo, um homem tem dois filhos, mas um deles decide sair de casa e desperdiçar sua herança em uma vida de dissolução. Nessa história, metade dos filhos se afasta, representando uma apostasia mais significativa, de 50%. Ela nos lembra que, mesmo quando a distância entre Deus e o indivíduo se torna maior, o amor e a misericórdia de Deus estão prontos para acolher o pecador arrependido de volta à comunhão.

Essas três parábolas, em sua progressão numérica, nos ensinam que a apostasia pode começar de forma gradual e aparentemente insignificante, mas pode se intensificar e afetar de forma crescente a vida das pessoas. No entanto, independentemente da gravidade da apostasia, o chamado ao arrependimento e ao retorno a Deus permanece. Deus está sempre disposto a buscar e acolher aqueles que se afastaram, independentemente do estágio em que se encontram em sua jornada de fé.

É importante destacar que o significado dessas parábolas vai além das porcentagens mencionadas. Elas têm o propósito de ensinar sobre o amor de Deus, a misericórdia e a graça, e o chamado à reconciliação com Ele. 

Parábola da ovelha perdida:

Termo grego: πρόβατον (probaton) - que significa "ovelha".

A ovelha perdida representa um indivíduo que se desviou do rebanho, simbolizando a condição de pecado e alienação do ser humano. A busca incansável do pastor pela ovelha perdida ressalta a graça e a misericórdia de Deus, que busca aqueles que estão afastados.

Parábola da dracma perdida:

Termo grego: δραχμή (drachmē) - que significa "dracma" (moeda antiga).

A dracma perdida é uma figura daqueles que estão perdidos espiritualmente e que precisam ser encontrados. A diligência da mulher ao buscar a dracma perdida ilustra o cuidado de Deus em restaurar a comunhão com aqueles que se afastaram.

Parábola do filho pródigo:

Termo grego: πατρικός (patrikos) - que se refere a "herança paterna" ou "bens paternos".

A história do filho pródigo destaca a decisão do filho de deixar a casa do pai e gastar sua herança em uma vida de dissolução. A apostasia é retratada nessa parábola, mostrando o afastamento voluntário e progressivo do filho em relação ao pai. No entanto, a parábola também enfatiza o amor incondicional do pai, que o recebe de volta com alegria quando ele retorna arrependido.

As parábolas de Lucas 15 nos mostram o amor, a misericórdia e a busca incansável de Deus por aqueles que se afastaram. Elas nos ensinam que a apostasia pode ser gradativa, mas o chamado ao arrependimento e ao retorno a Deus é constante.

No entanto, a mensagem de esperança e restauração não se limita apenas a essas parábolas. Jesus também nos deixou um convite poderoso em Apocalipse 3:20, onde Ele diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo."

Essas palavras de Jesus nos mostram que Ele está sempre pronto para nos receber de volta, independentemente do estágio de nossa apostasia. Ele está à porta, batendo e esperando pacientemente que abramos nossos corações para Ele. Se escolhermos ouvir a Sua voz e abrir a porta, Ele entrará em nossa vida, nos trazendo restauração, comunhão e uma vida transformada.

Essa passagem complementa as parábolas de Lucas 15, pois revela que Deus está constantemente buscando nos reconciliar com Ele. Ele nos chama para uma relação íntima, um relacionamento pessoal de amor e comunhão. Mesmo que tenhamos nos afastado, Ele nunca desiste de nós e está disposto a perdoar e restaurar.

Portanto, diante da apostasia gradual ou mesmo completa, Jesus nos convida a abrir a porta de nossos corações, a responder ao Seu chamado e a permitir que Ele entre e transforme nossas vidas. A porta da reconciliação está sempre aberta, esperando que nós a abramos para receber o amor e a graça divina.

Que possamos ouvir a Sua voz e abrir a porta, permitindo que Jesus entre em nossas vidas e traga a restauração que tanto precisamos.

Marcus Domingos

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O poder da religião nas decisões das massas

Cada sociedade desenvolve a sua espiritualidade. Ninguém senta em uma prancheta e desenha uma religião, ela simplesmente vai acontecendo a partir de suas crenças, que vão sendo repassado de geração para geração. Na maioria das vezes, não se tem ideia de como se iniciou aquela religião, e neste momento nascem os mitos. A partir do momento em que ela começa a se tornar dominante, poderosos começam a apropriar-se dela como arma de controle e manipulação das massas. Algo que não há como fugir, a não ser pela revolução filosófica teológica.

Há pessoas que acham que pelo simples fato de não professar uma determinada fé ou seguir uma religião dominante está livre de ser manipulado por suas doutrinas. Ledo engano. A coisa é muito mais profunda do que se imagina e não se prende a um grupo ou a outro. A religião dominante está impregnada na cultura e moral de um povo, assim como o inverso é verdadeiro. Portanto, todas as decisões de massa que serão tomadas, estarão intimamente ligadas ao poder da religião dominante.

Vamos tomar alguns exemplos para entender isto de maneira macroscópica:

Povos nórdicos - Odin

Os vikings acreditavam em Odin como o seu deus principal. Odin era o deus da guerra e da morte. Em sua crença, eles acreditavam que vencer a guerra era um favorecimento de Odin. Quando o seu deus os fortalecia, eles venciam. O povo acreditava que após uma morte heroica em batalha eles iriam morar eternamente em Valhala (Salão de Odin) e iram banquetear eternamente com os bravos semelhantes e com Odin. Os medrosos ou quem morria de outra forma, não iria para o paraíso nórdico.

Este pensamento os estimulava para guerrear e não temer a morte violenta, ao contrário, eles até a buscavam. Isto fazia com que os exércitos nórdicos fossem poderosíssimos, o que muito explica as suas grandes vitórias contra os cristãos na idade média. Eles realizaram grandiosas conquistas, navegaram para muitas partes da Europa levando o terror e uma nova cultura.

É interessante notar que eles venceram a guerra, dominaram outros povos com os seus exércitos, mas, a sua filosofia e religião foi engolida pelo cristianismo.

Índia - Brahma

Na Índia há uma crença em diversas divindades, mas, a mais importante é Brahma, criador do universo, Vishnu e o sustentador do universo, e Shiva, o destruidor e regenerador da energia vital. Os três juntos formam a Trimúrti, a trindade sagrada do hinduísmo.

Os indianos vivem sobre um sistema de castas, que está intimamente ligado às suas crenças. Este sistema legal de castas foi abolido em 1950, com a nova Constituição. Porém, mesmo com a mudança da Constituição, nada se alterou na religião. A fé e a espiritualidade continuaram as mesmas. Trata-se de um problema religioso, moral, que está enraizado nas pessoas. O principal interessado na continuação deste pensamento é a casta dominante, que se beneficia com esta posição de subserviência. Enquanto eles acreditarem em suas divindades, jamais questionarão seriamente, jamais se rebelarão.

A crença na religião impede que haja revoluções para se quebrar as castas. As pessoas se colocam em posição de impedimento até mesmo para se casarem com pessoas de outras castas.

Europa e América - Jesus

O cristianismo em geral crê em Deus, o criador de todas as coisas. O Deus judaico-cristão se manifesta na pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Durante o período em que a Igreja esteve no topo do poder em toda a Europa, ela exercia grande domínio sobre tudo. Ela ditava a forma que as pessoas viviam. Reis e governadores se dobravam ao domínio espiritual do santo Império romano. Até que começaram os questionamentos teológicos dos seus dogmas. Estes questionamentos se iniciaram a partir do uso da razão em detrimento a fé dogmática, no fim da idade média e início da idade moderna. Isto foi o estopim para muitas revoluções que varreram a Europa, modificando toda uma cultura.

A Reforma protestante foi resultado direto desta mudança de mente. A Reforma mudou o pensamento religioso da época. Após a Reforma Protestante o mundo ocidental experimentou o iluminismo e explodiu em revoluções. O rei deixou de ser o ungido intocável de Deus. Alguns dele foram depostos e até mortos. O cristianismo legitimava a figura do rei como soberano divino. Com a queda desta crença, muitos foram encorajados a lutar contra o absolutismo monárquico.

Conclusão

Seja em que lugar do mundo for, toda religião dominante está ligada diretamente à cultura. A cultura é reforçada pela religião e leva a hábitos e tomadas de decisões morais. O poder político estatal não está alheio a este fato. Ao contrário, utiliza-se deste expediente para manipular a religião e a cultura, para ter domímio pleno das massas, e assim, perpetuar-se no poder. Na maioria das vezes isto é feito de maneira mecânica, sem pensar, apenas praticando a mesma coisa e utilizando o mesmo expediente que todos. Todo poder dominante se enxerga como ‘o escolhido’ ou ‘agraciado’ pelo povo e pela divindade de seu povo. Sendo o rei escolhido por um deus, quem ousará a questionar?

Embora, em muitos países se defenda um estado laico, é impossível que o Estado seja totalmente laico, jamais será laico um país onde há uma religião dominante, a não ser que todos os cidadãos sejam ateus. Neste caso o ateísmo seria a forma condicionante sob a qual o povo viveria e nada mudaria, considerando que todo ateísmo está atrelado a uma doutrina filosófica, simplesmente iria se trocar um dogma religioso por um dogma filosófico.

Pr. Sergio Rosa


sexta-feira, 24 de março de 2023

Guerra ideológica comunismo x capitalismo



Guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam por dicisão de velhos que se conhecem, se odeiam, mas, não se matam" (Frase atribuída a Erich Hartimann)

Dividi et impera
, que quer dizer “Dividir para conquistar”. Este conceito foi amplamente utilizado pelo imperador Marco  Aurélio, por Napoleão e outros grandes expoentes históricos. É uma tática que não sai de moda, políticos e estrategistas do mundo todo se utilizam deste princípio para realizarem ações de destruição e/ou dominação do inimigo.

Há várias formas de se fazer isto: Semeando inimizades, discórdia, estimulando segmentações, atacando a moral, demonizando o inimigo. Sim, é preciso que o inimigo seja um monstro para dar legalidade a ação de destruição do outro. É preciso criar comoção social para que as pessoas se levantem em oposição achando que estão destruindo o mal, trabalhando pela justiça, pelos bons costumes, pela moral, até por Deus. Enquanto isto, praticam coisas horrendas, matam, perseguem, destroi, gerream, mas, sempre crendo que estão fazendo uma coisa boa.

O planeta, desde o início do século XX, foi dividido em pelo menos dois grandes seguimentos políticos: Comunismo/Socialismo x capitalismo. Embora comunismo e socialismo não sejam a mesma coisa, as pessoas de senso comum as veem como se fossem uma só coisa. Estes movimentos de segregação odiosa sempre foram estimulados por grandes oligarcas. Homens poderosos, detentores de grande parte da riqueza mundial, que brigam entre si, fazem guerra, mas, jamais lutam, colocam os outros para lutar por eles. Eles vivem bem acima das nuvens do Estado. São detentores de quase todo o patrimônio do planeta. Não ligam tanto para ideologia quanto parecem, não são adeptos de nenhuma religiosidade, seu deus é o dinheiro. Entretanto, se utilizam tanto das ideologias quanto da religião para marcar seus territórios e tomarem a riqueza de outros. São manipuladores da massa e da política.

Um exemplo claro sobre isto foi a guerra contra o Iraque, na época do Osama Bin Laden. Ele foi treinado pela CIA (o serviço de inteligência norte-americano), com as mais sofisticas táticas militares e planejamento financeiro. A ele foi fornecido tanto recursos como armamento para combater a antiga União Soviética na invasão do Afeganistão. Quando se fez esta aliança, ninguém se preocupou com a religião ou partido dele. Osama foi criado para uma finalidade específica, combater os soviéticos.

A desculpa da guerra sempre foi a luta contra comunismo, porém, o que na verdade sempre esteve em jogo era as riquezas petrolíferas do oriente médio. Para se ter uma ideia da desfaçatez, o Vice Presidente do Presidente Bush, Dick Sheney, se tornou o CEO da Halliburton, uma das maiores empresas de petróleo dos EUA. Ele que havia sido também Secretário de Defesa em 1991. Este foi o resultado da guerra contra o comunismo.

A polarização do comunismo x capitalismo sempre foi uma grande desculpa ideológica para promover guerras, com a finalidade única de proteger e enriquecer as oligarquias. Oligarcas só se preocupam com uma coisa, dinheiro. Como para ter mais dinheiro eles precisam de poder, então, promovem guerras. Enquanto isto, os demais habitantes deste planeta, ficam como tolos, brigando por causas que não entendem, matando em nome de coisas que não existem.

Pr. Sergio

terça-feira, 14 de março de 2023

Homens a favor desta terra

Ezequiel 22.30

O povo hebreu quando conquistou as terras de Canaã andava na presença de Deus e por esta razão, eles foram prósperos e conseguiram apropriar-se de toda aquela região, expulsando dali os seus inimigos. Durante a sua trajetória às vezes eles erravam o caminho, quando isto acontecia, Deus levantava, inicialmente, juízes para orientá-los, e mais tarde, quando já estavam consolidados na nova terra, Deus enviava profetas para os corrigirem.

Porém, com o passar dos anos, eles começaram a esquecer-se do Deus, que havia lhes concedido tantas vitórias. A quantidade de falsos profetas multiplicou-se exponencialmente. Eles não conseguiam mais discernir a voz de Deus. Dia após dia se afundaram nos seus erros. O resultado disto foi que eles acabaram indo parar no cativeiro babilônico por setenta anos.

Ezequiel é um profeta exílico, isto é, ele profetizou em meio aos exilados na Babilônia. Neste capítulo 22, ele aponta diversas razões pelas quais Deus intentou a destruição de Jerusalém, não foram poucos os motivos:

22.6 – Os príncipes eram sanguinários;

22.7 - O povo praticava extorsões contra o estrangeiro e eram injustos com os órfãos e viúvas;

22.8 – Desprezavam as coisas santas;

22.10 – Eram adúlteros, devassos, não respeitavam sequer a própria família;

22.12 – Praticavam subornos, exploravam e extorquia o próximo;

22.26 – Os sacerdotes transgrediam a lei e não faziam diferença entre o santo e o profano;

22.27 – Os príncipes auferiam lucros desonestos;

22.28 – Nem os profetas se salvaram, prediziam mentiras e entregavam falsas visões;

22.29 – Havia violência contra o aflito e opressão contra o necessitado.

Jerusalém estava completamente arruinada moral e espiritualmente. Havia uma decadência total de tudo. O resultado foi a destruição pelas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia. Deus permitiu que uma nação pagã destruísse tudo aquilo que ele havia construído ao longo dos anos.

Ezequiel, usado pelo Senhor, diz que o Senhor buscou entre os homens um só que não se corrompera juntamente com o povo, alguém que estivesse disposto a lutar pelo povo, trabalhar na reconstrução dos muros e se colocasse na brecha do muro, mas, não achou a ninguém.

Deus continua a procura de homens e mulheres deste quilate, a quem ele possa atribuir esta tarefa de reconstrução, nos mais diversos lugares, seja na igreja, empresa, escola, enfim, em todo o canto da sociedade.

Quais seriam as características destas pessoas?

1. Trabalhador

Precisa ser alguém que goste de trabalhar, porque a sua principal função é trabalhar no muro, tampando as suas brechas. Alguém que não é muito chegado ao trabalho não iria ajudar na reconstrução de nada, portanto, precisaria ser alguém muito disposto a enfrentar as dificuldades e trabalhar duro.

Outro dia eu vi uma reportagem de um rapaz chamado Sergio Pereira, 36 anos, que se formou em direito em 2022. Ele conseguiu passar no exame da OAB ainda no nono período, e na primeira tentativa. A história dele é de muita determinação e coragem. Ele viveu em situação de rua, mas, buscou uma saída através do trabalho e o estudo. Trabalhou em um lava-jato, que o acolheu e deixou ele dormir no local. Com suor comprou uma bicicleta para trabalhar também como entregador. Mais tarde conseguiu comprar uma moto para fazer entregas. Com 30 anos voltou a estudar e saiu do ensino médio para bacharel em Direito em apenas seis anos.

As pessoas que querem prosperar na vida, chegar a um lugar melhor, produzir boas coisas, precisam gostar de trabalhar, acordar cedo, produzir, estudar, dedicar-se a algo, buscar o seu crescimento pessoal e primar pela excelência no que faz. Acredito que quando Deus vai buscar alguém para o seu serviço, alguém para se colocar na brecha, ele deve procurar por estas características.

2. Corajoso

Precisa ser alguém que não se assuste com os perigos facilmente, caso contrário iria abandonar o seu posto diante do primeiro perigo. Aqueles que desejam ser usados pelo Senhor não pode temer diante da primeira ameaça, precisa ser valente para enfrentar os perigos.

Eu não sou um cinéfilo, mas gosto de assistir filmes com Rosana. Em 1995 foi lançado um filme que foi sucesso de bilheteria, que é assistido até os dias de hoje, Coração Valente, com Mel Gibson. O filme conta a história de Willian Wallace, um herói escocês do século 13, que liderou seus conterrâneos contra o monarca inglês Edward I. O exército amador de Wallace foi maior que o exército da Inglaterra. Pelo seu ímpeto, ele conseguiu despertar a Escócia para uma reação contra a colonização inglesa.

Para ser um homem que luta a favor desta terra é preciso ter coragem, porque os desafios são gigantescos. A nossa luta não é apenas contra carne e sangue, mas, também contra potestades espirituais.

3. Empático

Precisa ser alguém que sinta a dor do seu povo, se solidarize, que enxergue o que acontece com o oprimido, que se sensibilize diante das atrocidades, mas, que ao mesmo tempo não concorde com o erro e com o crime. A empatia não pode ser simplesmente uma concordância com tudo.

A empatia é o que nos leva a sentir a dor do necessitado. Mas, não basta sentir empatia, é preciso tomar uma decisão e fazer algo de útil, algo que irá, de alguma forma, minimizar a desesperança, algo que irá contribuir para que pessoas sejam ajudadas.

Martin Luther King é alguém que eu sempre cito, porque foi um homem trabalhador, corajoso e empático. Ele praticamente sacrificou-se para que o povo negro conseguisse muitos dos seus direitos. Ele lutou bravamente contra as leis de segregação racial norte americana, não apenas porque era negro, mas, porque sentiu a dor de seus irmãos, e estava em uma posição que lhe permitia fazer algo.

Como cristãos, devemos ser empáticos o tempo todo, sempre pensando no que podemos fazer em favor desta terra.

Conclusão

Tendo Deus, no passado, procurado dentre o povo de Jerusalém, não achou ninguém que pudesse lutar em favor da terra. O resultado foi que Jerusalém foi destruído, o seu povo foi para o cativeiro e só retornou setenta anos depois.

Deus está à procura de homens e mulheres que estejam dispostos a lutar pelo bem desta terra. Não precisa temer, porque não será pelas suas forças ou habilidades que você conseguirá alcançar êxito.

Quando olhamos para este texto, nós pensamos apenas na igreja, mas, penso que o texto vai muito mais além. Deus quer usar homens a favor desta terra em diversas áreas deste mundo.

Atos 1.8 Jesus fez uma promessa para os seus discípulos, que eles receberiam poder, ao descer sobre eles o Espírito Santo, e eles seriam suas testemunhas a partir de Jerusalém. Acredito que o que Jesus estava dizendo é que quem considerar participar desta missão não estará sozinho. O Espírito Santo do Senhor estará contigo. Deus utilizará de suas características, de trabalhador, corajoso e empático, porém, o poder será do Senhor, para te fortalecer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Igreja e os seus paradoxos


A Igreja, como eu já afirmei diversas vezes, é um lugar maravilhoso. Não me refiro a um espaço físico, um templo, uma edificação, por mais confortável e bem estruturado que seja, mas, a um grupo de pessoas que se unem para juntos adorarem a Deus. É neste espaço que experimentamos uma das mais gratificantes experiências, a comunhão: “Onde estiver dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles” (Mateus 18.20). Dietrich Bonhoeffer falou com propriedade sobre a importância da vida em comunhão, que só é possível a partir de uma experiência genuína com Jesus. Ele afirmava que esta é uma experiência maravilhosa, um tipo de preliminar do céu. Mas, Bonhoeffer sentiu este paradoxo na pele, quando viu a igreja se unindo ao regime nazista.

Jesus é a base da Igreja, a pedra fundamental, todos nós sabemos disto, ainda que por teoria. Mas, esta afirmativa na prática nem sempre é verdadeira. Se considerarmos a Igreja Universal, ou seja, todo o corpo de Cristo, independente de denominações, tempo ou localidade, sim, temos convicção plena de que Cristo é o cabeça, a essência, a seiva, sem a qual ela não subsiste. Quando olhamos as particularidades da igreja, suas divisões, suas singularidades denominacionais, não é difícil perceberemos as suas incongruências e paradoxos. A impressão que dá é que as vezes a igreja cava fundo e arranca a pedra fundamental e a substitui por outra coisa. É neste momento que ela decai da fé genuína. Ainda que não desenvolva uma iconografia própria, ela já se tornou idólatra. Muitas vezes, idólatra de si mesma.

Quando examinamos a história da Igreja, percebemos que ela passou por muitas situações complexas. Logo nos primeiros séculos, durante o período da patrística, ela foi perseguida pelo império romano de forma cruenta. Cristãos que se recusavam a sacrificar aos deuses do império e adorar ao imperador como divindade eram servidos como espetáculos nas arenas. Mas, tão logo estabeleceu-se um tempo de paz, ela cresceu e se enraizou entre o próprio império. A partir de Constantino, ela começou a fazer parte do império, se tornando poderosíssima, chegando a um ponto de ser mais forte do que impérios. Este foi o pior momento que a igreja viveu, justamente na sua ascensão ao poder. É interessante este fato, porque queremos que a Igreja cresça e tome lugares relevantes na história, porém, quando isto aconteceu, foi uma verdadeira tragédia.

Esta é uma visão macro da igreja, se, entretanto, olharmos com uma lupa, veremos que no mesmo período que ela estava sendo perseguida, enfrentava lutas internas contra heresias, divisões e perseguições entre os próprios cristãos. Exemplo disto foram as inúmeras doutrinas estranhas que surgiram em sua origem. Como exemplo podemos citar o gnosticismo, grupo de pessoas que afirmavam ter um conhecimento especial. Eles desenvolveram a doutrina docetista, que afirmava que Jesus era um espírito, não tinha vinda em carne e osso. Esse foi um momento de grande divisão na igreja e também de batalhas internas contra heresias.

Quando olhamos para a igreja no presente e todos os seus paradoxos, somos tentados a pensar que um dia foi diferente, em algum tempo ou algum lugar, porém, nunca foi. Nem mesmo a igreja neotestamentária ficou livre dos enfrentamentos. O que me deixa impressionado é pensar em como a igreja sobreviveu ao longo dos séculos com todas as suas incongruências. Fico pasmo em saber que foi esta igreja cheia de defeitos e problemas, que conseguiu guardar incólume a mensagem de salvação até os tempos presentes.

Aqueles que querem achar a perfeição na igreja se iludem completamente. Nunca foi pretensão de Deus fazer uma igreja perfeita, se o fosse, não poderia nos utilizar para esta tarefa, por que somos criaturas horríveis, somos imperfeitos, somos pecadores. Um dos grandes paradoxos é entender que aquele que se justifica nesta imperfeição para fazer o mal, se constitui em um agente de satanás. E, aí nos deparamos com um grande problema, como podemos construir algo saudável quando nós mesmos somos doentes? Como sermos responsabilizados pelas falhas da igreja, quando não somos perfeitos? Talvez este seja o paradoxo principal.

Se pensarmos na igreja somente a partir dos indivíduos que a formam e a formatam, sem a presença do Espírito, teremos a construção de algo maligno; uma torre de babel; no mínimo, um império humano. Por isto, a igreja jamais pode separar-se de seu elemento fundamental, Jesus. É através de sua presença no meio da igreja que ela consegue existir e prevalecer em meio a tudo. É a presença do Espírito do Cristo no meio da igreja que a santifica e a faz cumprir a sua missão, apesar de toda a sua vacilação e tendência para o mal. Não é apenas o nome de Jesus na boca das pessoas, mas, a transformação genuína que ele provoca no coração de quem se permite, é que faz a diferença.

Como Deus não atua em templos feitos por mão humanas, ele se utiliza de pessoas que têm um coração aberto para ser utilizado por ele. Apesar de quê, ele utiliza tanto o mal quanto o bom, para cumprir os seus mistérios. Porém, aquele que se deixa usar por Deus experimenta a sua presença, e tem experiências profundas com o eterno. Enquanto o que se entrega a malícia e ao mal, pode até alcançar glórias e tesouros desta terra, mas, jamais experimentará a glória celeste.

Pr Sergio Rosa


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A igreja e suas peculiaridades

Romanos 12.21

A Igreja é um lugar de adorarmos a Deus, lugar de estabelecermos comunhão, laços fraternos de amizade que vão durar por toda a eternidade. Lugar de buscarmos a cura para a alma, para o espírito e também para o fortalecimento do emocional. Através da nossa busca ao divino, tudo isto acontece naturalmente, fazendo da igreja o lugar ideal para todas as pessoas que desejam manter uma espiritualidade sadia.

Neste lugar sagrado é onde buscamos a presença de Jesus. Não exatamente um lugar específico, não confundamos templo com igreja, mas, o lugar onde os santos se reúnem para adorar. Quanto mais conhecemos a Jesus, mais ele transforma a nossa vida. Através de um relacionamento íntimo e sincero, somos aperfeiçoados pela fé. Isto é maravilhoso, e quer dizer que a cada dia somos desafiados a nos tornarmos pessoas melhores. Esta mudança pessoal impacta direta e indiretamente aqueles que estão em nosso entorno.

É na igreja que nós aprendemos a ler a Bíblia e começamos a ter alguma compreensão dos textos sagrados. Nos estudos das Escolas Bíblicas e nos sermões somos convidados a meditar um pouco mais profundamente nas Sagradas Letras. Esse conhecimento torna-se lâmpada para os nosso pés e luz para os nossos caminhos. É verdadeiramente um guia para toda a vida, nos mostrando um caminho mais excelente a ser seguido.

Foi na igreja que recebi auxílio de pessoas quando passei por situação complicada, tanto financeiro na hora de sufoco, quanto emocional na hora de crise. Foi na igreja onde eu tive e onde compartilhei os melhores momentos da minha vida, momentos de transbordar alegria.

Porém, a igreja não é um lugar perfeito, não tem só gente boa e não acontece só coisas boas. Há de tudo na igreja. Há pessoas tanto boas quanto más, pessoas bondosas e pessoas perversas. Acredito até que o número de pessoas perversas seja pequeno, porém, faz um barulho muito grande, principalmente quando se tornam líderes. Imagina o estrago que uma pessoa sem compaixão, sem o amor de Deus, promove na vida dos outros.

Há pessoas que estão na igreja, mas, são verdadeiras pedras de tropeço para os demais. São como os fariseus na época de Jesus, não entram no céu e não querem permitir que mais ninguém entrem também. São religiosos que não tem empatia, compaixão, não sentem paz, não tem temor ao Senhor. Vivem apenas escondidos atrás de fachadas religiosas. São ocas, não possuem o espírito do Cristo, por isto, são incapazes de se aperfeiçoar em fé.

Com tudo isto, a Igreja ainda possui a mensagem de vida eterna e do caminho da verdadeira espiritualidade vivida a partir de uma experiência autêntica com Jesus.

Se você pertence a uma igreja, busque o seu crescimento espiritual, aproxime-se cada vez mais de Jesus, torne-se uma pessoa melhor do que você foi ontem, seja misericordioso, pratique o amor, busque a paz. Não busque a companhia de pessoas perversas, nem se alie a eles. Vença o mal com o bem (Rm 12.21).

Pr. Sergio Rosa