Será que existe diferença entre um e outro? Ambos são o mesmo Deus? Seriam ideias distintas sobre o mesmo Deus, ou está pacificado o entendimento entre o Deus do Novo e do Antigo Testamento? Esta é uma discussão antiga, que varreu os séculos. Todos os que discordaram da ortodoxia foram considerados hereges. Talvez por isto haja tanta preocupação de se debruçar sobre este assunto. No entanto, não dá pra fazer de conta que não há diferença entre a leitura do NT para uma leitura do AT.
Um pouco sobre o debate ao longo da história:
Século II – Marcião de Sinope
Marcião foi um dos primeiros
grandes dissidentes da Igreja. Ele afirmava que o Deus do AT era um ser
inferior, vingativo e legalista, distinto do Deus revelado por Cristo no NT,
que seria puro amor e misericórdia. Criou um cânon próprio, rejeitando o AT e
aceitando apenas parte do NT (principalmente o Evangelho de Lucas e algumas
cartas paulinas). Sua doutrina, chamada Marcionismo, foi condenada como
heresia, mas obrigou a Igreja a definir melhor o cânon bíblico e a reafirmar a
unidade dos Testamentos.
Século II–III – Gnosticismo e Maniqueísmo
Gnósticos como Valentim e
Basílides viam o Deus do AT como um “demiurgo”, um ser limitado ou até maligno,
responsável pela criação material e pela opressão da humanidade. Mani, fundador
do Maniqueísmo, pregava um dualismo radical: o mundo seria palco da luta entre
o Deus bom (NT) e o Deus mau/criador material (AT). Essas correntes reforçavam
a ideia de ruptura, mas foram rejeitadas pela ortodoxia cristã.
Século IV–V – Padres da Igreja (Irineu, Tertuliano, Agostinho)
Irineu de
Lyon e Tertuliano combateram diretamente o marcionismo e o gnosticismo,
defendendo que o AT e o NT revelam o mesmo Deus. Agostinho de Hipona formulou a
célebre frase: “O Novo está oculto no Antigo, e o Antigo está revelado no
Novo”. Para Agostinho, a severidade do AT era pedagógica, preparando a
humanidade para a revelação plena em Cristo.
Século XVI – Reforma Protestante (Lutero e Calvino)
Martinho
Lutero via o AT como parte essencial da revelação, mas enfatizava que a Lei
(AT) não salva, apenas mostra a necessidade da graça revelada no NT. João
Calvino defendia a imutabilidade de Deus: o que parece severidade no AT é
justiça divina; o NT revela a misericórdia, mas sem negar a santidade. Ambos
reforçaram a ideia de continuidade, mas com ênfase na progressividade da
revelação.
Século XIX – Adolf von Harnack
Teólogo
liberal alemão, Harnack considerava o AT inferior em valor religioso. Defendia
que o cristianismo deveria se libertar da herança veterotestamentária, ecoando
o marcionismo em versão moderna. Sua posição influenciou fortemente a teologia
liberal, mas foi criticada por reduzir a riqueza da tradição bíblica.
Século XX – Hans Hübner
Teólogo
alemão que sugeriu que o AT não deveria ser considerado parte da teologia
cristã em sentido estrito. Para Hübner, o NT deveria ser lido de forma
independente, sem a “carga” do AT. Essa posição foi vista como uma releitura
contemporânea do marcionismo e gerou intenso debate acadêmico.
Século XXI – Teólogos contemporâneos
Ismael Sena Chagas, critica
a tendência moderna de ver o AT como “história de fracasso” e propõe uma
leitura integradora baseada na promessa e cumprimento. Teodorus R. Guerreiro
responde a correntes que retomam ideias marcionitas, reafirmando a unidade de
Deus e a importância do AT para compreender o NT. Correntes progressistas
defendem que Deus é o mesmo, mas a percepção humana amadurece ao longo da
história. o AT mostra justiça e santidade, o NT revela amor e graça.
Entre a ortodoxia e o liberalismo
A linha que sigo neste texto não e o da ortodoxia, no entanto, no entanto, também não é de linha liberal, em sua essência, muito embora é o liberalismo que tem a abertura para se fazer perguntas, o que nos permite ir atrás de respostas. No entanto, o liberalismo, por falta de um "freio" acaba caindo na teia da licenciosidade, onde tudo é permitido. Tentando fugir de extremismo, mas, com confiança de que podemos raciocinar sobre este e outros temas, sigo entre um e outro. Não se pode rejeitar completamente a ortodoxia, mas, não se pode deixar de questionar e buscar respostas, com responsabilidade.
O que se percebe na discussão
que varreu a história ao longo dos anos é que sempre foram apresentadas duas
possibilidades, a primeira é que trata-se do mesmo Deus, a segunda é que trata-se
de Deuses distintos, e portanto ou o AT ou o NT deveria ser rejeitado. O que
parece que foi esquecido é quem escreveu todo este material contido na Bíblia.
Não foi Deus, o Espírito Santo inspirou os autores, mas, ele não ditou letra
por letra. As Sagradas Escrituras não foram psicografadas, portanto, há um
tanto do Espírito Santo e um tanto do humano que se misturam no que foi escrito
e descrito. A partir deste pensamento, havemos de supor que foi um misto do
perfeito com o imperfeito. O perfeito dirigindo o imperfeito para nos trazer
boas novas, informações construídas a quatro mãos.
O que isto nos fala? Para responder
a esta pergunta, teremos que fazer outra: O homem de hoje é o mesmo de dez, cinco,
quatro, dois, mil, quinhentos, cem, anos atrás? Não! O mundo muda, se transforma,
a cada geração. Os pensamentos são modificados, dia após dia. Valores são substituídos
por outros. Crenças são alteradas. Se você lê um livro escrito por Filo, grande
historiador judeu, é totalmente diferente de ler qualquer outro historiador
moderno. Sua lógica, seu raciocínio, sua hermenêutica, sua forma de estruturar
o texto, sua cosmovisão, são totalmente diferentes de qualquer historiador atual.
A Bíblia levou cerca de
1.500 anos para tornar-se o que é. E, traz em si fragmentos de tempos bastante anteriores
a isto. Seja através de materiais físicos ou culturais que chegaram até os
primeiros escritores. Há se de pensar que durante todo este período houve muitas
modificações no pensar humano.
Quando nos debruçamos com
seriedade sobre a história narrada através dos vários livros da Bíblia percebe-se
uma evolução no entendimento a respeito do divino. A história se inicia no
Eden, com Adão e Eva, os primeiros personagens da narrativa veterotestamentária,
que deram início a todos os seres humanos. Chegando até Noé, ocorreu o grande restart
da humanidade com o dilúvio. Em Abraão Deus se manifesta entregando uma
promessa para toda a sua geração, que se iniciou com dois filhos: Ismael e
Izaque, sendo o primogênito nascido de uma escrava, fato este que não foi bem
aceito na tradição. Ambos deveriam ser alcançados pela promessa, que incialmente
não fazia diferenciação. Seguindo a tradição, a linha segue somente com Izaque,
enquanto Ismael segue nas sombras dos escritos. Nesta linha aparecem os doze
filhos de Jacó, bisnetos de Abraão, que dão origem ao povo de Israel. Este povo
nasceu na Mesopotâmia, mas, cresceu no Egito, onde permaneceram durante 430
anos.
Até este momento a visão divina
era do Deus de Abraão, Izaque e Jacó, o Deus familiar ou tribal. Era uma visão
ainda míope da grandeza de Javé. Esta visão só irá se ampliar após os séculos
vivendo no Egito, mas, propriamente quando veio a opressão sobre a geração de Jacó,
que eram alienígenas no Egito. Neste período nasce Moisés, em uma época em que o
povo hebreu estava crescendo mais que os Egípcios. Veio a ordem de matar a
todos os meninos, recém nascidos. Moisés escapa da morte, salvo pela filha de
faraó, que o adota e ele é educado em toda tradição egípcia. É nesta escola que
Moisés se torna um grande líder, com uma poderosa cosmovisão. Moisés tem uma
epifania, enquanto pastoreava o rebanho em Horebe, ele falou com Deus, através
de uma sarça ardente. Deus atribui a Moisés a missão de salvar o seu povo da
opressão do Egito.
Moises utiliza-se de vários
sinais miraculosos e consegue libertar o povo das garras de faraó. Esta e
outras experiências com Moisés liderando o seu povo no deserto, leva Deus a uma
grandeza ainda não percebida pelo povo. Deus passa a ser Deus libertador de um povo
oprimido, capaz de vencer os poderosos deuses do Egito.
O povo, após quarenta anos,
vagando pelo deserto, finalmente entra na terra prometida, logo após toda
aquela geração de mente fechada morrer, ficando apenas Josué e Calebe, com suas
respectivas famílias. Com este povo de nova mentalidade, jovial, forjados na
guerra, sob a liderança de Josué, exterminam povos que viviam em Canaã, e tomam
suas terras. Agora, Deus cresce ainda mais se tornando YHWH Tsevaot (Jeová Sabaot),
Senhor dos Exércitos. Sob o comando deste Deus, manifesto na liderança de
Josué, o povo hebreu cresce na terra de Canaã, mas, até então não havia se
tornado Estado, apenas doze tribos que se reunia somente para guerrear contra
outros povos ou contra si mesmos.
A partir destas doze tribos
nasce um governo Estatal, um reino, tendo Saúl o seu primeiro rei, que viveu toda
a sua vida atormentado pela possibilidade de um golpe de Estado por seu “afilhado”
Davi. Davi não o mata, embora tenha tido a oportunidade, mas, cria um poderoso
grupo paralelo com soldados de não boa reputação, que se tornam seus valentes.
“Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo
homem endividado, e todos os amargurados de espírito; e ele se fez chefe deles;
e eram com ele uns quatrocentos homens”. (I Sm 22.2).
Em Davi se inicia uma
dinastia, que vai reinar sobre a tribo de Judá, mais tarde sobre todo o Israel,
e após Roboão, somente sobre Judá novamente.
Durante o período dos Reis,
surge uma figura nova, importante no Reino, os profetas. Juntamente com os
sacerdotes, eram os responsáveis pelo culto e pela palavra revelada de Deus. Os
profetas da corte tinham uma missão de orientar os reis em todas as questões do
reino, principalmente sobre as guerras. Jeová Sabaot era consultado para saber
se o rei deveria ou não ir a guerra. Um dos instrumentos usados era o urim e
tumim, um tipo cara ou coroa, que o profeta utilizava em oração, para conhecer
a vontade de Deus.
A partir dos profetas, Deus
cresce ainda mais, tornando o Deus nas nações. Em Jeremias
16:19 lemos: “A ti virão as nações desde os confins da terra”; Em Salmo
47:8 lemos: “Deus reina sobre as nações; Deus está assentado sobre o seu
santo trono”. Esta ideia do Deus de Israel é a concepção que temos até os
dias de hoje, e que foi espalhada por todo o mundo. Quando lemos o Antigo
Testamento parece que eles sempre tiveram esta concepção, mas, percebe-se que ela
foi construída ao longo dos séculos.
Toda esta introdução para
finalmente chegar no ponto crucial de nossa celeuma. Se há alguma diferença
entre o Deus que se revelou à humanidade através da história de Israel e seu
entorno, com o Deus que se revela no Novo Testamento em Jesus.
O nascimento de Jesus foi
lincado pela tradição à profecia do AT, sobretudo do profeta Isaías 7:14: “Eis
que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel”; Isaías
9:6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre
os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da
Eternidade, Príncipe da Paz”; confirmada em Mateus 1:23: "Eis que a
virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de
Emanuel, que traduzido é: Deus conosco". Jesus foi apresentado no Novo
Testamento não apenas como o Messias, mas, como o próprio Deus, que veio em carne
e habitou entre nós.
Esta tradição foi confirmada pelos concorridos concílios:
Niceia (325): Jesus é “gerado, não
criado, consubstancial (homoousios) ao Pai”
Constantinopla (381): reafirma a
divindade e define a Trindade;
Éfeso (431): proclamou Maria como
Theotokos (“Mãe de Deus”), reforçando que Jesus é uma só pessoa divina, mesmo
possuindo duas naturezas;
Calcedônia (451): Jesus é verdadeiro
Deus e verdadeiro homem, em duas naturezas inseparáveis.
Estas definições se
tornaram dogmas católicos, que foram absorvidos pelo protestantismo. Por serem
dogmas, pouco se questiona ou se debruça sobre eles, para melhor entender as
suas definições, sobre o risco de ser considerado herege, os que ousarem a
debater o tema.
No entanto, é notória a
diferença nas ações de Jeová Sabaot e Jesus. O primeiro era o Senhor dos Exércitos,
o segundo tornou-se o Senhor dos Exércitos das milicias celestiais. O Deus do
AT guiava o povo literalmente às guerras, e destruir os seus adversários. Enquanto,
o Deus do Novo Testamento não se importa com política ou questões terrenas, e
faz nova promessa, de uma Sião celestial, uma nova terra, que não é deste
mundo.
Durante a história, nos muitos
debates, muitos propuseram os mais diversos tipos de sugestões para responder a
estas questões, e a maioria deles levava a cisões, divisões, brigas
doutrinárias terríveis, e até mesmo prisões e mortes. Cada resposta criava um
segmento de discípulos que, quando se tornava politicamente poderosos perseguia
e oprimia a quem quer que fosse que pensava diferente. Os resultados dos
concílios sempre foram decididos a partir do grupo predominante, que tinha ao
seu lado o poder político, ou de alguma forma foi amparado por ele.
O que fica bastante
claro é que a diferente visão de Deus não se dá apenas do NT para o VT, mas, é
uma visão crescente, que se modifica a cada geração. Mas, trata-se da mesma fé.
A fé em um criador, universal, único, todo-poderoso. Esta é ideia central, mas,
que foi descrita de diferentes formas, através dos séculos. Portanto, não dá para
fragmentar os escritos e separar o AT do NT, porque são visões distintas, a
cada livro, da mesma coisa. São leituras humanas do que foi a revelação divina.
O grande problema é o
que cada geração faz com este conhecimento? Como foi e é usado o nome de Deus na
história. Deus, desde que ele se tornou o todo-poderoso, virou símbolo de ostentação para poderosos, que o instrumentaliza com a finalidade de manipular e controlar o povo.
Nas américas hoje, temos
o Deus que se manifesta na política, escolhendo um candidato, e o ungindo para
governar sobre as nações. E, nesta crença, o povo ouve a “voz profética” dos
líderes religiosos, que os orientam a votar naquele que eles fielmente
acreditam ser “o escolhido”. Se o Deus do AT, era Jeová Sabaot, e o Deus do NT
foi Jesus, o Deus do presente século poderia ser bem chamado de Jeová Bechirot,
o Senhor das Eleições.
Deus é sempre o mesmo, apesar das muitas diferentes narrativas. O nosso desafio é encontrá-lo no meio de tudo isto. E, entender que onde há opressão e política em nome de Deus, certamente não será ali que o encontraremos.
Sergio Rosa - Pastor
